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Tímido, Rodrigo Lombardi diz ter 'medo de levar um fora'


Ele foi jogador de vôlei, garçom e distribuidor de panfletos. Achou que viraria mendigo por falta de emprego, e acabou na novela das 8, na pele de Raj. O galã de Caminho das Índias poderia ter morrido no início da trama, mas o carisma de Rodrigo Lombardi o transformou no objeto de desejo de 99% das telespectadoras brasileiras. Em entrevista à Marie Claire, o ator confessa que nunca fez sucesso com as mulheres e diz ter pavor de ouvir ´não´

 

Eram 16h30 e eu já esperava havia duas horas quando fui chamada para um tal ´estúdio A´ . Ali, Osmar Prado (Manu), Nívea Maria (Kochi) e Ricardo Tozzi (Komal) passavam as falas. Para a cena, faltavam apenas Juliana Paes, que terminava os retoques da maquiagem, e Rodrigo Lombardi, que apareceu, minutos depois, cumprimentando câmeras, contrarregras e colegas de elenco com um simpático ´Saravá´.

´Estamos de partida para o Brasil´, disse o ator, na pele de Raj, a Manu. ´Brasil?´, assustou-se o interlocutor. ´Não se preocupe, meu sogro, iremos pela linha vermelha´, emendou o ator, provocando risos no estúdio. A bagunça terminou com o clássico: ´Silêncio. Gravando!´. Daí, foram 15 minutos até que Rodrigo se despisse de Raj e aparecesse sorridente em minha direção. ´Vamos, lá?´, perguntou, colocando a mão direita no meio das minhas costas, como se fosse me conduzir em uma dança. Caminhando pelo Projac, começamos a conversa. Um copo de Nescau e três pães de queijo depois, Rodrigo parecia à vontade. O papo só foi interrompido quando o frio apertou e pedi que ele me esperasse enquanto me dirigia à sala ao lado para pegar minha jaqueta. ´Se for só por isso, não vejo o porquê´, disse o galã , tirando a camisa que vestia para cobrir os meus ombros. Are baba! E eu que jurei que não me deixaria enfeitiçar...

Três horas depois, caminhando em direção ao carro, Rodrigo notou que havia perdido o celular. Tentei ajudá-lo a encontrar, ligando para o aparelho. Mas não deu em nada. Uma hora depois, ao chegar em casa, tentei novamente. Foi quando ouvi: ´Meu anjo da guarda! Graças a você, acabo de achar o telefone´. Por essas e outras - que você lê a seguir -, é fácil entender como Rodrigo conquistou as mulheres do Brasil.

Marie Claire Quem o ensinou a tirar a blusa para dar a uma mulher?
Rodrigo Lombardi
<risos> Essa é boa. Nunca pensei nisso. Deve ter sido meu pai . Ele era representante de vendas de roupas e minha grande referência cultural. É o responsável por eu sentir nostalgia de uma época que nem vivi. Sou apaixonado por Frank Sinatra e Ella Fitzgerald por causa dele. Já chegava em casa cantando: ´I left my heart in San Francisco´ .

MC E da sua mãe, o que herdou?
RL
O gosto pela leitura. Ela lê até bula de remédio. Aos 13 anos, devorei seu Humilhados e ofendidos, de Dostoievski. E adorei, adorei . Mas só soube que o livro era dele aos 20, quando fui estudar teatro. Hoje sou apaixonado pela literatura russa. Adoro Gorki e Tchecov. Conheci mais da literatura brasileira, quando soube que Machado de Assis bebeu em Dostoievski.

MC Li que você veio de uma família de classe média paulistana do bairro de Higienópolis. Mas quem é de São Paulo sabe que, para morar em Higienópolis, é preciso ser, no mínimo, de classe média alta...
RL
Cresci na Albuquerque Lins, rua que divide Higienópolis de Santa Cecília, um bairro mais modesto. Mas minha família teve altos e baixos, então, digo que a gente era classe média-média mesmo. Moramos no Itaim Bibi, na Bela Vista e, numa dessas crises, até num sítio que tínhamos em Juquitiba .

MC Que crises?
RL
Crises pelas quais todo comerciante passou nos anos 80 e início dos 90. Minha família teve muito e perdeu quase tudo. Por isso, mudamos tanto. Eu era o segundo de cinco irmãos, minha mãe, dona de casa, e meu pai dependia das oscilações dos negócios

 

MC Foi numa dessas que você foi morar nos fundos de um escritório de campanha política?
RL
Era 1995 e eu tinha acabado de chegar de San Diego , onde passei seis meses jogando vôlei . Cheguei a São Paulo e minha família tinha se mudado para o sítio. Tava todo mundo sem grana. Aí, arrumei um emprego na agência de viagens que me vendeu a passagem, mas mal dava pra pagar um condomínio. Então, dividi um quarto com um dos empregados do meu pai no fundo de um escritório político, perto da Avenida Nove de Julho. Chiiiique ...

MC Vem daí o ´medo de virar mendigo´ que você diz sofrer?
RL
Também. Hoje a gente tem tudo e amanhã pode não ter nada. O medo aumentou quando saí de casa e comecei a ter aquela sensação de ´putz, a conta vai chegar e não vou conseguir pagar´. Por isso a imagem do mendigo. Ela é a cara do meu medo de ficar sem emprego...

 

MC O medo o levou à terapia?
RL
Fiz dois anos de terapia, mas não por causa desse medo. Fiz porque fiz. Parei em 2005, quando vim para o Rio.

MC Que linha era?
RL
Um pouco de tudo. Tinha ´Freud diria isso, Jung diria aquilo´ e até física quântica. Chegava cheio de dúvidas e ele dizia: ´Você é tão facinho!´. Já dava uma apaziguada, sabe? Do tipo, ´tudo bem você se sentir assim. É normal´.

MC Assim como?
RL
Me cobro demais. Tenho mania de abraçar os problemas. Carrego o mundo nas costas. Quando menino, cheguei a me trancar no quarto pensando no que fazer para resolver os problemas do Brasil. Queria ser Presidente da República porque ouvia meus pais reclamando do país...

MC É verdade que você estuda psicologia infantil por conta própria?
RL
Não sou um grande estudioso, mas adoro ler a respeito. Sempre fui apaixonado por literatura infantil, pelos contos universais, e pensei: ´Pô, tá aí, vou estudar pedagogia e psicologia infantil´.

MC Piaget (o pai do construtivismo, forte corrente da educação) e Vygotsky (outro estudioso da área) são nomes que dizem algo a você?
RL
Claro! Assim como a Melanie Klein, psicanalista austríaca que elaborou a técnica da análise para crianças. Já li muitas coisas dos três. Mas confesso que misturo conceitos. Vou lendo, lendo...

MC Tem algo que você leu e aplica na educação do seu filho, Rafael?
RL
Não me vejo com essa propriedade toda. Até porque, assim como adoro psicologia infantil, eu ... ... assisto à Super Nanny, pô! Confio na ação da Super Nanny! Não aplico tanto porque meu filho ainda tem um ano e quatro meses, mas já estabeleço alguns códigos. É um barato você ver a resposta da criança. Quando ele começou a andar e descobrir a vida de um novo ângulo, foi uma delícia.

MC Valeu a pena trabalhar como garçom e distribuidor de panfletos para virar o galã da novela das oito?
RL
As pessoas têm mania de falar em galã, galã. Não existe isso de galã. Assim como não tem esse papo de química com a Juliana . O que a gente tem é técnica.

MC Desculpe, mas não concordo. Acho que aquele olhar do Raj pra ela é de amor, de tesão quase.
RL
É pra você achar mesmo . Isso é técnica.

MC Mas nas outras novelas que fez na Globo - Desejo proibido <2007>, Pé na jaca <2006> e Bang bang <2005> - não era assim...
RL
Os outros personagens não eram protagonista, por isso chamavam menos atenção. Cresceram ao longo da trama. Parece pedante falar assim, mas é verdade. Vim pro Rio há quatro anos fazer uma participação em Bang bang e não saí mais daqui.

MC Como foi isso? Você se tornou ator por acaso?
RL
Depois que voltei de San Diego e vi que com a minha altura <1,84 metro> era praticamente um anão para o vôlei, desisti da carreira e fui ser garçom no restaurante Friday´s. Uma garçonete que trabalhava comigo era atriz e acabei entrando pro grupo dela. Gostei tanto da coisa que fui parar no grupo Tapa. Depois, fiz Meu pé de laranja lima, na Band, e Marisol, no SBT. Aí, em 2005, quando fiz um teste para Bang bang, o Luciano Rabelo, que cuidava do casting, me ligou: ´Tenho uma boa notícia e uma má´, disse. ´A boa é que seu personagem mudou, é um mágico grego bem bacana´. E eu: ´Puxa, que beleza! E a má?´. E ele: ´A má é que só faz 20 capítulos´.

 

MC Aí você pensou: ´Pronto, é agora que eu viro mendigo´...
RL
Exatamente! Mas do vigésimo capítulo, fui para o vigésimo primeiro, para o centésimo e, quando a novela acabou, já estava apalavrado para Pé na jaca.

MC Foi nessa época que você conheceu sua mulher, a maquiadora Betty Baumngarten?
RL
Foi...

MC Quem o vê como o galã da TV, imagina que você seja casado com uma Gisele Bündchen, mas Betty parece ser uma mulher normal. Por que você se apaixonou por ela?
RL
Ah, isso é tão pessoal. Reformula essa pergunta, vai...

MC Então conte o que o seduz numa mulher...
RL
Posso ver uma deusa na minha frente e uma garota comum. Se tiver que ficar com alguma, será aquela que tiver o melhor papo. Preciso conversar com ela por pelo menos cinco minutos para achá-la interessante.

MC E o que o irrita numa mulher?
RL
Papo de mulherzinha, do tipo: ´Me passa o sal?´, seguido de ´Ai, que foi, hein?´. ´Ué, nada, por quê?´ ´Pedi o sal e você fez uma cara meio assim...´

MC Sei. Você se refere à mania de discutir a relação?
RL
Não. Até que sou chegado numa DR se for para melhorar a relação. Tô falando de mulherzinha mesmo, dessa mania de querer ver coisa onde não há.

MC Como a Betty lida com o assédio? Ela tem ciúme?
RL
Ela é do meio e entende como tudo funciona. Sou um cara tranquilo, saio pouco de casa. Só vou ao mercado, ao banco, à locadora e, no máximo, paro para tirar foto, dar um autógrafo. Isso é normal. Complicada é a cobrança do ciúme. Às vezes assistimos à novela com amigos e, na cena de beijo, todo mundo olha pra ela: ´Olha o que ele fez, olha o que fez´, cobrando o ciúme, sabe? Mas ela não dá bola.

MC Você vive dizendo que é tímido, mas aqui não parece...
RL
Sou tímido sim. É que sou bom de retórica, o que esconde um pouco. Mas pra dar o primeiro passo é meio difícil, viu? Nunca fui o cara que chegava nas meninas. Na escola, sempre tive medo de levar fora, da negativa...

MC Com que idade você perdeu a virgindade?
RL
Com 17, tarde até em comparação com meus amigos. Sempre fui o fofo da turma. Nunca fui o bonitão, o pegador. Emagreci agora, no início do ano, durante a viagem pra Índia .Peguei uma bactéria e perdi sete quilos. Mas adolescência era sempre aquilo: ´E o Rodrigo?´. ´Ah, o Rodrigo é fofo.´

MC O que mais o incomoda nesse momento Raj da sua vida?
RL
Paparazzo incomoda. É invasivo. Não posso fazer uma brincadeira com um amigo, porque, além da imagem, dependo do que o cara vai escrever embaixo. Minha sorte é que sou pacato, só vou à locadora pegar filmes.

MC Qual é seu cineasta favorito?
RL
Vittorio di Sica e Bergman. Também adoro o jeito caricato do Almodovar e do Tarantino. Vou de zero a cem. Entender o porquê das coisas me fascina. Daqui a pouco, vou querer voltar a buscar a filosofia, fazer um curso de história da arte, estudar piano, voltar a sapatear...

MC Voltar a sapatear?
RL
Sapateei dos 22 aos 29.Via musicais do Gene Kelly e queria sair na rua fazendo igual. Do lado da minha casa, tinha um lugar que dava aulas. Fui lá e me matriculei escondido da minha mãe, para evitar piadinhas. Anos depois, ela descobriu meus sapatos de plaquinha. Mas, aí, já sapateava e trabalhava como ator. Fazia mais sentido, sabe? Não parecia excentricidade.

MC Você acredita em Deus?
RL
Acredito, mas não na forma católica de ser. Deus não está preocupado se a gente está com medo dele ou não. Deus é a razão. Se eu fosse Ele, diria: ´Meu ´eu´ do céu! Tá tudo errado. Deus é o equilíbrio, não é a culpa´.

MC A viagem para Índia mexeu com suas crenças?
RL
A Índia veio pra me dar certezas. O respeito à hierarquia familiar é uma delas. Hoje, a gente vê um filho dando tapa na cara do pai como se fosse normal. Precisamos achar um caminho de colocar na cabeça da criança que respeitar os pais é legal, porque, no futuro ela também vai ser respeitada.

MC O que o tira do sério?
RL
Falta de educação. Pacote de salgadinho atirado pela janela, sabe?

MC Nos últimos três meses, você fez quatro campanhas publicitárias . Ganhou muito dinheiro?
RL
Muito não. O suficiente para segurar por um tempo, mas ainda não deu para comprar minha casa própria.

MC Que comerciais não faria?
RL
Cigarro. Álcool, não sei, talvez fizesse. Mas cigarro não. Não existem níveis seguros para o consumo. E sobre o álcool, li em algum lugar que um país pode ser do Primeiro Mundo sem ter uma grande banda de rock ou bombas nucleares, mas uma boa cerveja ele tem que ter. E eu nem bebo, hein?

MC Nem vinho, de vez em quando?
RL
Bem de vez em quando, só para brindar. Não curto o sabor do álcool.

MC Com o ritmo das gravações, você quase não para em casa. Sente culpa de estar pouco presente nesse primeiro ano de vida do seu filho?
RL
Sabe aquela coisa do avião: se você estiver com uma criança, ponha primeiro a máscara em você e depois na criança. Hoje, estou colocando a máscara em mim. Amanhã, vou ajudar muita gente e estar com as pessoas queridas. Agora vivo um momento meu, que sei que vai passar. Amanhã acaba a novela e retomo minha vida.

MC O que você pretende fazer?
RL
Vou conhecer o Rio de verdade, coisa que ainda não fiz. Só sei ir de casa pro Projac e de lá para a casa dos meu sogros, no Leblon. Também não vejo a hora de viajar, curtir meu filhote, minha mulher e me desligar do trabalho.

 

fonte : http://revistamarieclaire.globo.com


Visualizações: 1164

Adicionado em: 04-07- 2009


Temas relacionados: Rodrigo Lombardi . Ator . Caminho das Indias . Novelas . Marie Claire . Revistas . Entrevistas . Globo .

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